quarta-feira, 25 de abril de 2012

Cabeça dura...

Sei que sou um cara bem teimoso, convicto em muitas coisas. Às vezes, porém, uma conversa despretensiosa faz a gente pensar e até mudar de opinião. Hoje estava conversando com minha colega de trabalho Paula F. M. sobre a bendita reportagem da Veja que humilha pessoas de baixa estatura. Paulinha é uma baixinha das boas... não chega a 1,50m. Teve muitos desafios pela vida.

Mas ela não é santa. É uma teimosa de primeira. Já brigamos inúmeras vezes, devo porém reconhecer-lhe tem uma qualidade (que sem querer me gabar também possuo): ela não é de se ofender com qualquer bobagem. Tenho muita dificuldade em conviver com pessoas melindrosas, que se ofendem por qualquer coisa, não agüentam críticas, puxões de orelha, brincadeiras sarcásticas ou gozações leves. Como cantaria Mísia aquele fado: "Mas por ter assim nascido, não me atinjam, não me toquem, meus amigos sou de vidro...". Gente de vidro não dá. Irritam-me demais.

Estavámos eu e Paula a discutir sobre o hormônio de crescimento prescrito a crianças com déficit hormonal ou dificuldades em atingir uma determinada altura-alvo para a idade e a herança genética familiar. Eu tinha uma opinião formada, mas ele me fez abrir os olhos para algo tão simples e que não me tinha ocorrido em nenhum momento.

Agora fiquei com a pulguinha atrás da orelha. Vou ter de refletir tudo de novo, rs... mas não é que há certo prazer nisso?

Curiosamente hoje o Rodrigo Constantino em seu blog - que procuro ler sempre que posso e está aí ao lado na coluna "Blogs que leio" - publicou um post (http://rodrigoconstantino.blogspot.com.br/2012/04/um-conflito-de-visoes.html) exatamente sobre debates, mentes abertas/fechadas a novas posições e ideias. Considero-me bem teimoso, mas acho que procuro sempre entender a visão do outro. Obviamente que aquelas posições que me provocam reações mais apaixonadas são difíceis de mudar.

Procuro sempre me lembrar de como mudei politicamente. Sempre me interessei por política, antes mesmo de me entender por gente. Nunca, mas nunca mesmo, vou me esquecer de estar subindo a Serra (para os não-paulistas: voltando do litoral para o planalto, ou seja, para a cidade de São Paulo), no banco de trás e ouvir no rádio que Jânio Quadros havia vencido a eleição para prefeito da capital. Meus pais fervorosamente apoiavam Fernando Henrique Cardoso, àquela época no PMDB, pois o PSDB nem havia sido fundado. Fernando Henrique era apoiado por parte da esquerda e pela gente da elite bem-pensante (abstração irônica sobre algo inexistente). Pra variar Eduardo Suplicy só fez atrapalhar.

Ao ouvir que Fernando Henrique havia perdido a eleição, eu - um arremedo de gente - chorei. Era 15 de novembro de 1985. Eu tinha quase sete anos e a política já me interessava. Depois disso tive uma paixonite pelo Quercia (vejam só!) e o "apoiei" na eleição para governador no ano seguinte. Até fiz meu pai colocar uma faixa enorme no portão de casa, tinha uns quatro metros de largura. Eu cheguei até a fazer boca de urna durante algumas eleições. Naquela época era permitido e a bagunça era geral.

Paulatinamente fui virando um filopetista... culpa do meu pai. Nunca fui um petista inteiro (da espécie dos petistas petralhensis), mas fui muito simpatizante. Em 1989 também foi inesquecível ter ido com meu pai ao comício de Lula (ainda não era nosso Estimado Líder Kim Jong Lula) nas eleições presidenciais daquele ano. Existia uma euforia no ar. Os petistas e simpatizantes se achavam portadores de uma verdade que os demais imbecis não tinham capacidade de enxergar. Eu já arrogantemente acreditava piamente nisso. Os demais eram todos idiotas. Somente havia uma caminho, pela esquerda é claro.

Segui direitinho a cartilha do perfeito idiota latino-americano. Cheguei até mesmo no terceiro ano colegial a colar na parede da sala um trecho do livro-manifesto-propaganda "As veias abertas da América Latina". Este é talvez um dos mais bem acabados exemplares daquele tipo de literatura engajada e panfletária de esquerda. Basicamente a culpa pela merda da América "Latrina" é dos outros, principalmente culpa "duzamericânu". Todo latino-americano é um coitado por excelência, explorado e vilipendiado por europeus primeiro e americanos depois. É a costumeira desresponsabilização tão cara à esquerda no mundo todo. A culpa é sempre de outrem ou de alguma entidade abstrata. O pobre é sempre um coitado e não tem culpa de nada.

Fui doente de petralhice aguda até ir morar na Espanha. Os momentos de ócio e solidão que lá vivi foram minha cura. Graças ao Senhor, aleluia, deixei de ser filopetista, petista, esquerdista e toda essa bosta. Outro fato que marcou essa virada ocorreu em 2005: eu estava em Brasília no dia do depoimento de Roberto Jefferson no Congresso. A essa altura eu já sacava que a Era da Inocência Petista havia chegado ao fim, pra mim e muitos outros.

Após o Mensalão só sobrariam os canalhas, os imbecis e os ingênuos. Os canalham comandam, os imbecis fazem guerrinha na internet disparando suas imbecilidades e os ingênuos votam sem saber onde estão se metendo, quase sempre por osmose. Sobre o mundo petralha (portmanteau de "petista" com "Irmãos Metralha", by Reinaldo Azevedo; também serviria petista com canalha) escreverei com certeza várias outras vezes.

A questão que queria registrar é que eu mudei muito politicamente e em outras tantas questões. Tento sempre me manter aberto a novas ideias e concepções, não é um exercício fácil. Quando me sinto teimoso demais digo a mim mesmo: "Já fui petista... que vergonha!".

Nenhum comentário:

Postar um comentário