Ganhei meu primeiro computador pessoal aos treze anos. Hoje tenho 33. Lá se vão, portanto, vinte anos desde que entrei em contato direto com esta maquininha que hoje já faz parte da vida de mais de um bilhão de pessoas no mundo todo.
O ano que corria era 1992. Fui um dos primeiros garotos a ter um computador em casa mesmo vivendo num bairro de classe média de São Paulo e estudando num colégio freqüentado por alunos oriundos de famílias com bom poder aquisitivo (em alguns casos de ótimo poder aquisitivo). Claro que não fui o primeiro a ter. O primeiro PC que vi e toquei foi um Apple, não sei que modelo; tinha tela acinzentada com texto em verde brilhante. Pertencia ao pai de um grande amigo, estava na sexta série (hoje se não me engano é o sétimo ano do ensino fundamental). Esse meu amigo, Marcos T. C. M., era o protótipo do nerd, era um grande cara. Mas, estou fugindo do tema... num futuro post falo dele. Algum tempo depois foi meu vizinho Artur N. T. S. a ganhar um computador. Era um X-qualquer coisa... agora nem me lembro o nome. A gente se divertia jogando um gamezinho bizarro em que o King Kong tinha de jogar sei lá o quê do alto de um prédio... tinha de calcular ângulo, velocidade, vento... passávamos horas naquela joça... eu, Artur, Luciano R. F., André L. T. e eventualmente outros visitantes para desfrutar daquelas horas de "pura diversão".
Aquele primeiro computador que ganhei fora comprado pelo meu pai num tipo de consórcio e a um preço absurdo. Até 1990 o Brasil era fechado às importações e havia reserva de mercado na área da informática. Coisas do "capitalismo" tupiniquim. Nestes vinte anos o computador sem dúvida me foi um grande companheiro. Não fez parte da minha infância, mas fez parte da minha formação intelectual. Não tenho dúvidas que se não existisse o computador teria lido muito mais livros, mas também sei que muitos outros mundos não estariam ao meu alcance. É o tal conceito de mixed blessing.
Por um bom tempo meu computador foi aquela coisa estática. Ali parado não era mais do que uma máquina de escrever avançada enfeitada com algumas outras firulas. Eu era um garoto moderadamente curioso... fuçava aqui e ali, mas nunca fui um computer freak.
A primeira vez que aquele computador fez algo de realmente "revolucionário" eu já estava no colegial (à época já se chamava "segundo grau", mas ninguém dizia "estou no segundo grau". Há um bom tempo passou a se chamar "ensino médio). Foi pela amizade, não lá muito profunda, com Carlos André M., um mestiço de japonesa e italiano, que resolvemos um dia conectar via linha telefônica nossos dois computadores. Inicialmente foi complicadinho. Muitas chamadas telefônicas depois... voilà! Nossos computadores estavam conectados e podíamos nos comunicar via texto com o HyperTerminal, que era o aplicativo do Windows 3.11 que permitia aquela "revolução"!
Eu fiquei eletrizado com aquela sensação. Consigo lembrar muito bem o que senti. É difícil descrever. Explicar para alguém que já nasceu na era da internet é simplesmente impossível. Posso dizer que no mundo da tecnologia nada me impressionou tanto deste então. É algo que vou guardar até vestir o paletó de madeira.
O próximo passo seria assinar uma BBS. Quantos hoje sabem o que é isso? Pois é... bons tempos. Saudosismo é coisa de gente velha, rs. Havia uma meia-dúzia de BBSs operando em São Paulo. Isso porque era (e ainda é) a maior cidade do país! Mandic, STI e algumas outras. Insisti com meu pais e assinei a STI. Era divertido... baixar uma foto de mulher pelada com 20kb demorava muitos minutos... e era sempre uma surpresa! Afinal a única coisa que se sabia sobre o arquivo era seu nome e, às vezes, uma breve descrição do tipo "loira peituda". Nem sempre a surpresa era boa. Mas dava pra ser divertir... Era possível também conversar em salas de chat. Muita gente criou amizades sólidas já naquela época. Eu não. Essas amizades não me seduziam.
Se não me falha a memória, meu primeiro contato com a internet foi de ouvir dizer. Já sabia o que era internet, mas era uma ideia não muito clara pra mim. Nunca vou me esquecer o comentário da minha professora de Química, Roseli M., em que ela contava haver visitado a página do Vaticano! Ainda não conseguia entender o que era "visitar a página", ou melhor, "acessar o site". Esses dois neologismos ("acessar", que em português deveríamos usar "aceder", e "site") viriam a se tornar uma expressão de uso comum e sair incessantemente da boca de milhões de brasileiros poucos anos mais tarde.
Aquela abstração me instigou a querer de qualquer maneira entrar nessa história de internet. Minha BBS já oferecia o serviço integrado, BBS + internet, mas era um pouco caro. Meus pais nunca me mimaram com presentes. Sempre foram justos, mas não faziam todas as minhas vontades. Eu também era bem mais frugal do que sou hoje. Mas - não me lembro bem quando - finalmente consegui. Abriu-se então o mundo da internet no meu computador. Era um troço super lento... sempre precedido daquele barulhinho já histórico de som metalizado produzido pelo modem. Nessa época a internet tinha menos de 10 mil usuários no Brasil todo. Isso mesmo, 10 mil pessoas numa população de 160 milhões de habitantes.
Tempos depois, no dia do meu aniversário de dezoito anos, já nos últimos dias de 1996, fui pessoalmente (sozinho e de metrô) à sede da Folha de S. Paulo na rua Barão de Limeira. Lá comprei por R$ 15,00 ou R$ 20,00 (não me recordo bem mas não era pouco como hoje poderia parecer) um kit do Universo Online (UOL), provedor de internet lançado em abril daquele ano. Era um estojo com um folheto informativo e um disquete de 3,5 polegadas. Com ele se instalava o programa de acesso do UOL e o discador. A internet não era a mesma, já começava a ter a cara que tem hoje. Claro que quase todos os sites tinham aquele visual HTML básico. Ah... tempos de GeoCities, Lycos, Tripod... os sites pessoais eram todos feitos nestas plataformas. Era uma coisa bem tosca, vendo com olhos de hoje. Eu tive um. O site era hospedado primeiro no GeoCities e depois no Tripod. Hoje é um defunto em pó na internet. Partes dele ainda existem como citações em sites cuja atualização, se gente fosse, já estaria na adolescência.
Os blogs surgiram um bom tempo depois, popularizando-se por volta do ano 2000. Sendo sincero: nunca me atraíram. Claro que vez ou outra pensei em fazer um blog, mas achava que não tinha nada a dizer. Na verdade continuo pensando que não tenho nada de útil a acrescentar. Aí é que chego, vinte anos depois do meu primeiro PC, a este meu blog, que hoje inauguro.
Não sei se vai durar, se vou "postar" toda semana, todo dia, todo mês...sei lá. Tomei coragem e resolvi criar uma página na qual posso expressar minhas ideias e contar um pouco da minha vida, como fiz neste ensaio inaugural. O objetivo é também deixar algo para minha posteridade... geneticamente falando. Quem sabe um dia filhos meus, que ainda nem nasceram, netos, bisnetos, possam ter acesso ao que pensei e senti um dia. Pretendo retomar passagens da minha vida, exprimir ideias sobre a atualidade, sobre política e sobre qualquer outra coisa que me der na veneta.
Provalmente não terei leitores... talvez um ou outro desavisado acabe por aqui depois de me achar numa pesquisa do Google devido a alguma coincidência logarítmica. Tô nem aí. Mentira... sentir-se lido é uma boa sensação, mas não nutro esperanças. Se meus filhos tiverem paciência de ler alguma coisa já me darei por satisfeito. Bem, deixo minhas boas-vidas a mim mesmo!
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